Desvãos do Pensamento
No sexto volume da Coleção Letra de Médico, Josyanne Rita de Arruda Franco apresenta na obra "Desvãos do Pensamento", uma faceta ainda pouco conhecida de sua atividade literária: a narrativa poética. O livro segue no ritmo que o próprio título sugere, alternando a sensibilidade que procura rimas e encontra a prosa. No espaço do pensamento, a oportunidade de sonhar com palavras. Ao leitor, um desafio de não se envolver com a atmosfera sensível presente no livro. As aquerelas que ilustram o volume são de Ana Claudia M.Macedo
Eis um dos textos do livro:
DEPOIS
DAQUELA TARDE
Se ela estivesse nua em meio à multidão,
decerto não seria tão minuciosamente observada. No entanto, podia sentir a
força e o peso daqueles olhos pousados nela, mesmo estando de costas para eles:
sempre foram implacáveis ao desnudá-la, esquadrinhando pensamentos e mistérios.
Atrás dela ele permanecia calado e
pensativo, perscrutando-a num silêncio aterrador e cabalístico, típico dos
grandes finais. Os relâmpagos e trovões daquele fim de tarde orquestravam o
“não dito”... o céu choraria por eles.
Havia ainda um fio de esperança de que
ela reconsiderasse a dolorosa decisão; ele a amava de um jeito muito próprio,
mas verdadeiro, já que nunca acreditou em fórmulas de amor. Os amuos e
tristezas eram coisas de momento, estava apenas sem inspiração e isso o
agoniava; precisava escrever, continuar vivendo os sonhos, buscar emoções...
não era culpa dela, eram os apelos, a vida que se agitava em seu íntimo,
chamando-o. O que fazer para que ela entendesse? A acusação era injusta, não
era inconstante ou temperamental, apenas um artista, um poeta, alguém que vê o
mundo com outros olhos... e ela sabia disso quando começaram.
Argumentava tentando convencer, demovê-la
da ideia de ir embora definitivamente. Tentaria ainda uma vez seduzi-la,
envolvê-la em beijos e sussurros apaixonados.
Resolveu tocar a música que ela preferia
ouvir todas as vezes em que se encontravam...a ideia encheu-o de entusiasmo.
Imóvel, ela permanecia quieta e nem se
virou para ver o que ele estava fazendo; ouvia seus movimentos, tentando se
manter indiferente e quase constante. Já havia ensaiado a atitude, não queria
ser surpreendida e sucumbir aos apelos dele. Os pensamentos a invadiam, cheios
das lembranças que o amor utiliza como recurso: a intimidade e o prazer dos corpos...
os risos, mimos e segredos.
Ah, se o amor não fosse tão inconstante e
volúvel, ele saberia sobre o que ela fala... com o tempo e a conquista
consumada, floresceu o costume, vieram amargas cobranças e o desencanto. O lado
escuro da paixão sempre cobra seus tributos: nem poesias ele escrevia mais para
ela.
Portanto, estava decidida a não ceder às
chantagens e súplicas.
Cansara-se do universo efêmero e volátil
dele, bom demais aos delírios do amor e pouco prático para a realidade da vida.
Era uma mulher acostumada a realizar, estava farta de fantasias, desejava a
concretude dos planos. O abismo se tornara irreparável e os engolira.
Ela suspirou fundo, quase um lamento
assustado que percebia a proximidade do adeus.
Olhou o ambiente que tanto conhecia: os quadros
que ele pintara desalinhados nas paredes; as flores e a garrafa do vinho tinto repousadas
no aparador; a escrivaninha repleta de livros; papéis amontoados, rascunhos de
poemas. Sobre um velho divã, almofadas de veludo azul com apliques em vermelho,
antes atraentes, hoje parecendo incrivelmente cafonas.
Esboçou
um sorriso desolado, pálido de encantos... concluiu que tudo aquilo eram
truques, tolices românticas de um contumaz sedutor.
O silêncio espectral e cheio de sombras
resgatou-a ao lugar de despedida. Acordes melodiosos vindos do saxofone tentavam
seduzir com a música que era sempre um convite: “fly me to the moon let me play among those stars...” Ah, era
demais. Melhor fugir que capitular.
Decidida, abriu a porta e se dirigiu ao
elevador, passos firmes e altivos; nenhuma lágrima, nem um olhar para trás, uma
palavra sequer.
O som do sax silenciou, estupefato com o
acontecimento.
No térreo ela se desfez do celular na
primeira lata de lixo que encontrou; de posse de um novo aparelho que tirou da
bolsa, ligou resoluta e disse estar a caminho.
Finalmente, acomodada no táxi que
permanecera aguardando seu retorno, permitiu-[L1] se
olhar uma última vez aquele endereço tão conhecido.
Uma
dor de ausência e perda muda e consumada percorreu-a inteira, numa invasão
causticante que a encharcava de tristeza.
Sentiu-se derrotada pela rima e pelo
verso, pelo viço que tanto o rejuvenescia, pelo ardente olhar que arrebatou sua
emoção numa distante e inesquecível noite de inverno.
Da janela ele observava sua partida,
jovial e carismático. Levantando a taça com vinho, ofereceu a ela um brinde,
irreverente como sempre. Trazia estampada no rosto uma melancolia doce e cheia
de dignidade.
Ele seguiria sem ela nos caminhos da
ilusão, ela sabia... Voltará aos seus escritos e logo a esquecerá. Não! Ele
tornaria a escrever porque haveria uma saudade para lembrar, outra razão para
não esquecer. O poeta é egoísta, só lhe interessa o que sente, melhor seria
voltar ao encontro da segura realidade.
Ela baixou os olhos bem devagar, até que
os cerrou, como quem desce as cortinas ao fim do espetáculo. A mente
descansava, esvaziada em racional alívio... a areia do tempo decerto cobrirá as
ruínas do amor e tudo será passado.
Recostada no banco do táxi, deixou-se
levar até o destino escolhido, ouvindo o rumoroso tilintar da chuva que
escorria nos vidros.
Depois daquela tarde, nunca mais o viu.
