quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Chegou o volume 8

O Canto das Sereias


No oitavo volume da Coleção Letra de Médico o talentoso autor José Jucovsky decidiu reunir todos os textos que escreveu ao longo dos anos. Juntou poesias, acrósticos, poetrix, contos, crônicas, ensaios, sonetos em 400 páginas de muita inspiração e talento. No texto de introdução, o próprio Jucovsky alerta o leitor: " É inevitável que no imaginário intelectual do leitor, ao caminhar em torno de sugestivos e atraentes títulos, não siga ansioso como admirador para peregrinar a vida através dos desconhecidos e originais textos." Aceito o convite para a leitura, o autor irá se deparar com algumas joias e preciosidades, como a que a seguir se transcreve.  

Eis um dos textos do livro:

Que tipo de criaturas seremos no futuro?

      O homem é afetado não apenas pelo passado, mas também pelo presente e pelo que prevê do futuro. A humanidade busca sempre a compreensão filosófica da dualidade:  matéria e espírito. Os pensadores apegados a pontos de vista metafísicos tentam responder às clássicas perguntas: o que? – por que? – onde? – para onde?

Aldous Huxley, conhecido autor de extensa obra literária, publicou, em 1932, fantasiosa previsão do futuro da humanidade no antológico romance “Admirável Mundo Novo”. O universo de suas idéias vem sendo confirmado pelo espantoso progresso técnico-científico das últimas décadas. Pensador profundo dos problemas humanos é considerado um dos autores importantes da cultura contemporânea. Projetando neste surpreendente romance de ficção uma sociedade hermética de estrutura cientificamente moldada para  introduzir a produção industrial e agrícola mecanizada. No romance, a vida seria criada por fecundação artificial em enormes “Centros de Incubação”, onde cada óvulo fecundado seria clonado noventa e seis vezes, resultando em igual número de gêmeos idênticos. Os embriões, por sua vez, seriam selecionados por um “Sistema Mundial de Castas”, com características iguais para iguais funções. Cada grupo, submetido desde o nascimento à hipnose educativa diferenciada, ficaria condicionado a exercer um trabalho preestabelecido, bem como as obrigações sociais sempre com dedicação, prazer e amor, jamais se revoltando contra o seu destino. Imaginárias vidas humanas ajustadas psicologicamente fazem parte de um corpo harmônico, onde prevalece o uso da droga agradavelmente eufórica “Soma”.
                                           
Huxley escreve em 1947 “O Macaco e a Essência” ainda sob o impacto das monstruosas revelações da existência de campos de concentrações e das explosões das bombas atômicas em Hiroxima e Nagasaki. Nesta pequena obra prima Huxley imagina e retrata o que seria uma “Terceira Guerra Mundial”, que teria início no século XXII e durado somente três dias, com o uso de espantosa quantidade de armas atômicas e bacteriológicas.

Visão aterradora, possível de vir a acontecer, são as imagens descritas no romance pelo autor. Trágico imaginário advento de uma guerra, que deixaria um mundo devastado e contaminado pela fissão nuclear. Empenhado em transmitir sua antevisão com realismo usa neste livro os artifícios de roteiros cinematográficos, criando uma constrangedora visão apocalíptica de um mundo em ruínas.

A importância do pensamento huxleyano deve ser vista através da mais cruel das realidades do homem: a perda da sua essência. O grande enigma existente nas sociedades modernas, o homem escravizado à máquina cava a sua própria sepultura, num mundo que adquire uma perspectiva sombria no uso abusivo do poder das armas existentes.
Ao analisar as estruturas socioculturais o autor demonstra que a tecnologia tanto pode ser a salvação como a perdição do planeta. Critico mordaz, expõe um veemente libelo sob o rótulo que chama de ações destrutivas do homem, como desmatamentos de florestas e indústrias poluidoras do meio ambiente. Ressalta os explosivos e intermináveis conflitos com modelos de intolerância e agressões aos direitos humanos, com enorme número de mortes indiscriminadas. E na realidade pode-se continuar afirmando ser o homem o único animal a massacrar outros membros da sua própria espécie. “Os macacos escolhem os fins; só os meios são dos homens”.  
                                                                                                                                            A máxima acima é realmente terrível quando atrelada a doutrinas políticas de governos tiranos ou a grupos revolucionários candidatos a tiranos, corrompidos pelo excesso de poder e egoísmo. O horror da desintegração da própria substância da espécie humana poderia ser o resultado tanto de uma guerra atômica como da industria atômica. Torna-se um verdadeiro pesadelo ao se imaginar as consequências de um edital promulgado por um ditador quando se lê: - “O Estado deve preocupar-se sempre com os seus objetivos, não importando quais os meios para obtê-los”.

Definitivamente devemos combater a desumanização do homem, e transmitir às sociedades totalitárias um grito de alerta contra a desenfreada corrida armamentista.

A história da humanidade está repleta de pensamentos e teorias inventadas por gurus, líderes espirituais, fundadores de religiões, todos muitas vezes com legiões de adeptos  fanáticos com indócil paixão por suas crenças. O absurdo é verificar que religiões e nacionalismos xenófobos são sempre de extrema intolerância para os que não postulam de suas idéias.    
    
Os recursos e técnicas dos meios de comunicação quando monopolizados por um universo político ou religioso totalitário, contribui para que a ficção se torne realidade, podendo a natureza humana atingir o auge da barbárie. Porta-vozes com tenacidade e persistência em repetitivas e fartas publicidades transformam o poder da autoridade déspota em soberano absoluto, até por direito divino. Fugindo dos princípios primários dos direitos humanos, ditador empenhado em impor a sua suposta superioridade étnica leva seu racismo às raias da loucura.

Conflitos e problemas seculares de ordem econômica, política, religiosa e de fronteiras entre países, continuam existindo. Também temos plena consciência que a quantidade de armas atômicas e bacteriológicas existentes poderão devastar por completo a vida na face da terra. Só os homens podem escolher os meios.

São Paulo, julho de 1999.

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