AS CAMPÂNULAS AZUIS
No volume 3 a Coleção Letra de Médico apresenta o livro de estreia de Maria do Céu Coutinho Louzã onde ela reuniu seus contos, crônicas e alguma poesia que vem escrevendo desde que passou a dedicar-se a registrar suas histórias. Agora todo o encanto e delicadeza de seus escritos estão juntos, para gáudio dos leitores que já aprenderam a admirar seu talento literário.
Leia uma de suas histórias:
Leia uma de suas histórias:
Uma
tarde monótona
Quem
chegasse durante a tarde, todos os dias a encontrava sentadinha no banco do terraço,
com os braços cruzados. Pequenina e magra, sempre com uma saia longa, parecia
uma menina ansiosa, à espera de alguém que a viesse buscar. Era assim a sua
rotina de sempre, naquela casa de repouso, onde já vivia há alguns anos.
O
terraço da casa dava frente para um jardim bem cuidado. Canteiros floridos
formavam lindos desenhos geométricos sobre o gramado. Passarinhos saltitavam
alegremente, à procura de algo para comer ou voavam entre os galhos de algumas
árvores, que ao cair da tarde projetavam sombras com desenhos estranhos nas
paredes do sobrado. Um portão bem fechado era encimado por uma linda buganvília
que sempre se cobria de flores cor de vinho. Formava um gigantesco buquê
colorido, encantando quem por ali passasse.
A
senhora demonstrava uma grande doçura no seu olhar e até nas rugas, que
certamente acusavam a sua idade. A sua decisão de morar numa casa de idosos contrariou
sobrinhos, sua única família. Mas ela dizia que ficara só e só deveria viver.
Não daria trabalho nem preocupação a eles. Quando quisessem vê-la seria sempre
um prazer. Poderiam encontrá-la ali, no lar que escolhera para terminar os seus
dias. E era assim que vivia já há alguns anos. Era conhecida pelos companheiros
pelo seu jeito de ser arredio, muito quieto. Porém sempre amável quando a ela
se dirigiam.
Mas
para ela os seus dias eram longos e sem sabor. Pouco convivia com os outros hóspedes
a não ser para assistir televisão ou para uma prosinha sem consequências. Porém,
isso era muito raro. Preferia permanecer no seu canto onde se sentia melhor e
procurava não pensar no passado. O passado feliz era passado. Estava há muito
jogado num cantinho de uma gaveta. Achava sempre que não deveria pensar em algo
bom que a vida não traria de volta. Assim os dias se arrastavam lentamente e as
noites eram longas, muito escuras, rondando a sua solidão.
Com
os braços cruzados olhou para o portão mais uma vez. Depois ergueu os olhos para
aquele céu tão azul e lindo, com nuvens que, ora corriam ora se desfaziam para
aparecerem mais além. Era como um quadro sempre em movimento, pensou a senhora.
Olhou
novamente o jardim, agora sendo regado por repuxos finos de água produzidos por
algum dispositivo. O jardineiro sempre atento deve ter ligado, pensou consigo
mesma. Eles refletiam as cores do arco-íris nas gotículas que caiam rápidas
sobre a grama. Reparou e achou engraçado uma fileira de formigas subindo pela
parede. “Parecem bem organizadas!” pensou consigo mesma.
O
sol já cansado de iluminar o dia, se despedia, deixando no horizonte rabiscos
coloridos, para assim permitir que estrelas, timidamente começassem a brilhar
ao longe.
A
velha senhora olhou mais uma vez para o portão fechado. Nenhuma visita havia aparecido
naquela tarde como era costume e o dia, que terminava, fora tão longo! Levantando-se,
agarrou com as duas mãos o seu casaquinho, como se o frio do crepúsculo
ameaçasse tirá-lo e lentamente dirigiu-se para dentro da casa. E deixou para
trás todos os seus pensamentos de uma tarde inexpressiva.
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