PÉTALAS
No volume 4 da Coleção Letra de Médico vem com os contos, crônicas, limeriques, poesias e reflexões de Roberto Caetano Miraglia. Ele assim apresenta a sua obra: "Escolhi o título “PÉTALAS” já faz algum tempo. E, agora que surgiu esta oportunidade de publicação, vou usá-lo. Tenho em mente que o conjunto das pétalas forma a corola de uma flor. Comparativamente, o conjunto dos escritos forma um livro. Para mim, o bom livro é como uma flor que mexe com os nossos melhores sentimentos!"
Leia uma de suas histórias:
Leia uma de suas histórias:
O retrato de Marieta
Gino estava viúvo havia dez anos. Marieta faleceu
deixando Gino sob os cuidados das duas filhas.
Na parede da sala, próximo à porta de entrada de sua
casa, Gino conservava o retrato de Marieta sempre limpo e brilhando. Ao sair
para a rua, Gino se despedia de Marieta, e, ao chegar, olhava para o retrato e
tirava o chapéu.
Certo dia, voltando de um passeio, Gino entrou em casa e,
como sempre, tirou o chapéu para o retrato de Marieta. Mas... que surpresa! A
foto... Marieta estava sorrindo para Gino!!!
– Dio Santo! Marieta riu pra mim! - exclamou o assustado
velhinho.
– Nicolina, Conchéta, viene qui! - gritou Gino para as
suas filhas.
– Fala papá! Que aconteceu?
– Dio mio! Tua máma riu pra mim!
– O quê ? Bebeu vinho, papá?
– Ma que? Io vi com esses ólho que a terra há de comê!
– Papá, onde já se viu um retrato dá risada!?
– Ma io vi!!!
– Ma viu a máma dá risada!? Como isso é possível, papá?
Será que não foi um cisco no olho?
– Cassarola, ma que cisco que nada, io vi Marieta ri pra
mim! Deu até pra vê o dente de ouro que ela tinha no lugar do canino esquerdo!
– Papá, você viu a máma com um cachorro na boca?
– Chega, Nicolina! Basta Conchéta! Vocês não acredita no
que io to falando! Deixa estare!
Gino foi para a cama ainda surpreso com o que havia visto
e muito bravo com suas filhas que não acreditavam na sua visão.
No dia seguinte, bem cedo, Gino resolveu sair, e, como de
costume, se despediu do retrato.
Gino já estava na rua quando decidiu voltar e olhar de
novo Marieta.
– Cáspita! Marieta balançou a cabeça!
– Nicolina!! Conchéta!! - gritou Gino.
– Ma que houve papá? - indagou Nicolina.
– Io não tô ouvindo nada, io tô vendo sua mãe balançá a
cabeça!
– Papá, outra vez com essas visão? - criticou Conchéta.
– Ma será o Benedito!? Voceis não acredita numa palavra
que io falo? Marieta balançou a cabeça,
é vero!!!
– Papá, com quantos anos o senhor tá? - perguntou
Nicolina.
– Acho que com todos!
– Ma vá papá, responde sério!
– É sério! Io não me recordo! Só sei que faz tempo que io
nasci na minha bela Itália. Acho que quando vim pro mundo, o Papa ainda era
coroinha!
– Pois é papá! É problema de “umidade”!
– Ma que umidade?!
– “Uma idade” avançada!
– Nicolina, você tá debochando de tuo papá! Io vi tua
máma balançá a cabeça, e se voceis não acredita, io vô dá uma vorta!
Arrivederci!
–Tchau, papá!
Gino foi se distrair um pouco para acalmar os nervos.
Ninguém acreditava em uma só palavra do que dissera e isto o aborrecia muito.
A notícia de que Gino via o retrato de Marieta se mexendo
havia se espalhado por todo o bairro do Cambuci. Em qualquer lugar que fosse
Gino era questionado sobre suas visões e acabava sendo alvo de brincadeira dos
amigos.
– Ei! Gino! Sono io, Vitório! Come estai, compadre?
– É, Vitório, io acho que tô ficando pazzo!
– Ma quê? Sei pazzo em dizer que está pazzo?
– Ma nó, Vitório! É que ninguém acredita que Marieta se
mexe no retrato!
– E você, acredita?
– Ma, claro! Se io to falando que vi é perché vi!
– Intó, Gino, não seria aquelas coisa de “gato ou
passarinho” que os médico fala?
– Ma que coisa é essa, Vitório?
– Uma tar de “mia ou pia”?!
–Nó, Vitório! Se io tivé alguma coisa nas vista, o remédio
é uma cadeira!
– Cadeira? Pra quê, Gino?
– Pras vista cansada!
– É Gino, você gosta de brincá! Cadeira pra vista
cansada! Essa é boa, compadre!
– Só brincando mesmo, compadre Vitório! Só brincando!
–Vá benne Gino! Ma non fica triste, vá! Se a Marieta, que
Dio a tenha, tá se mexendo prá você é porque ela qué arguma coisa, você não
acha?
– Ma, que coisa?
– Io não sei! Ma, da outra vez que ela se mexê, pergunta
pra ela!
– Boa ideia, compadre! É isso mesmo que io vô fazê! Tchao
compadre!
– Tchao, Gino! Se cuida! Io sei que você tem as vista
boa, mas da outra vez que sair na rua, coloca a ceroula por baixo das calça e não por cima! Vá benne!?
Gino ficou esperançoso com a sugestão dada pelo compadre
Vitório. Quem sabe se perguntando, Marieta responderia o porquê de tudo o que
estava acontecendo.
Voltando para casa pela Rua Lavapés, fez o sinal da cruz
quando avistou acima a Igreja Nossa Senhora da Glória e foi em direção ao Largo
do Cambuci para chegar até a Rua Major José Bento pela Rua Independência.
Durante o percurso, tendo em vista que a notícia havia se
espalhado, a criançada brincava com o bom velhinho:
– Seu Gino, Seu
Gino,
bateu a cabeça
e
ficou ouvindo o sino!
– Mais respeito, seus moleque! – esbravejava Gino.
E a molecada continuava cantando os versinhos de
provocação:
– Seu Gino, Seu
Gino,
Onde
está Dona Marieta?
Acho
que está dentro do retrato,
Fazendo um monte de careta!
Chegando em casa, Gino foi em direção ao retrato e logo
foi dizendo!
– Marieta, Marieta, o que você qué?
Depois de um pequeno silêncio, ouviu-se:
– Dinheiro pra fazê compra no armazém!
– O quê?! - exclamou o assustado velhinho.
– É papá! Eu preciso comprá umas vinte lâmpida e me
esfregá bastante!
– Mio Dio, Nicolina, que susto! Você não tá vendo qui io
tô falando com sua máma? E pra quê você precisa de vinte lâmpida pra se
esfregá?
– Porque o médico-torpedista do Hospital
Penitência Portuguêsa disse que pra eu me curá das dor nas costa eu preciso
tomá muito banho de luz! Avete capito?
– San Genaro! Quanta ingnorância! Onde já se viu uma
coisa dessa!
Os dias foram passando e Gino vendo Marieta se mexer no
retrato. Ora piscava, ora sorria, ora balançava a cabeça. E ninguém acreditava
em suas visões.
O bom velhinho já nem ligava mais se as pessoas davam
crédito à sua palavra, pois o que realmente importava era saber que Marieta lhe
mandava sinais.
Nicolina e Cocheta estavam pensando em levar Gino ao
médico. Os amigos foram aos poucos se afastando, porque imaginavam que estava
esclerosando, principalmente quando ele vestia a ceroula por cima das calças!
O tempo, implacável, foi passando, até que um dia o
coraçãozinho de Gino parou e ele foi ao encontro de sua querida Marieta.
Para homenagearem seu pai, Nicolina e Conchéta colocaram
o retrato de Gino ao lado do retrato de Marieta, próximo à porta de entrada da
casa, e todos que passavam pelos retratos faziam reverência, como culto ao amor
eterno daquele casal.
Depois do demorado velório, Gino foi enterrado no
Cemitério da Vila Mariana, cercado de muita tristeza e principalmente de muito
remorso das duas filhas, que sempre caçoavam do pai por suas fantasias.
Nicolina e Conchéta voltaram para casa tristes e
cabisbaixas, abriram a porta da sala, olharam para o retrato do pai e falaram:
– Descurpe, papá, se nóis te chateou! Ma é difícil
acreditá que a máma se mexeu, capisce? Num dá pra engoli que retrato pisca e dá
risada! O senhor não acha? - disse Nicolina.
– É papá, o senhor e a máma faiz farta! - Disse Conchéta
chorando.
– Vá benne, a vida continua, Conchéta. Vamo dormi que
amanhã é outro dia!
– Tá certo, Nicolina. Vamo em frente que atrais vem gente!
As duas olharam para os retratos e disseram:
– Buona notte papá! Buona notte máma!
– Buona notte! - ouviu-se ao longe.
– O quê?! Você falou arguma coisa, Nicolina?
– Io? Io nó! Já até tirei os dente de cima pra dormi!
– Nó, ma eu ouvi falá buona notte!
– Ma, eu também!
– Será que foi o papá?
– Sei pazza! Retrato não fala!
– Ma falô!
