terça-feira, 14 de junho de 2016

Chegou o volume sete

Luiz(s) Signo do Sol - a cinzenta tarde colorida


O sétimo volume da Coleção Letra de Médico vem com a irreverência poética de Luiz Jorge Ferreira, que explica assim sua maneira de escrever:”Eu converso com meus filhos pelo WhatsApp, emito frases, crio contos aproveitando trechos de suas frases, e as ponho entre outros trechos para criarem vida. Eu acredito na vida existente nas cousas.” Ele juntou tudo isso neste livro, com as inevitáveis pitadas de surrealismo. 

Eis um dos textos do livro:

De: ljorgeferreira [mailto:ljorgeferreira@uol.com.br] 
Enviada em: quarta-feira, 19 de agosto de 2015 16:59
Para: rumoeditorial@uol.com.br
Assunto: Fwd: SIGNO DO SOL...  MADRE

SIGNO DO SOL... MADRE

Após arrumar o Fado, as Photos,
e a Música de Chico Buarque,
Na estante ao lado.
Mamãe deita para morrer.
Eu fui buscar o mar, puxando-o pela janela apodrecida da sala.
E o coloquei ao seu lado.O cheiro de peixe pregou-se em nós.

Depois de cirandar entre Ursa Maior e Plutão.
Quero dizer Av Ernestino Borges
e Odilardo Silva.
Mamãe finge que um dia afogou os igarapés na poça d’água do quintal.
Onde o cheiro dos cajus embriaga o sol.
E lá criou os particípios passados para que ninguém a ouvisse soletrar S.A.U.D.A.D.E.
Havia um barulho de flores no cio.
E o mês de Abril partindo a galope.

Hoje durmo nu sob o Equador.
Corro anão sob o céu de Macapá.
Onde ruminar com os potros, sorri minh’alma.

Quero juntar-me aos tuiras e tuins.
Um mar tolo foge pelo ontem.
Ao longe a chuva chicoteia nos telhados.
Em mim o que chicoteia eu engulo,
com saliva e afim.
À noite, a noite molha minha pele negra com coisas da noite, sob a luz vesga da lua.
Ela uma tola que se acocora com Cora Coralina.
E se intimida com o Português de Pessoa.
Sabe que o mar é um punhado de água com sal.
E conta para as gaivotas que contam para minha mãe que grita.
“A Bombordo, com o sol!”

Amargo até o último mel dou nó nos nós.
Corro para o pôr do sol cego como um pássaro cego em um vôo cego.
Minha mãe salga o olhar
no mar simplesmente só.
Os olhos dos gatos
que sobem sobre os escuros, a espiam.
Enquanto cansada, ela cheira o mar que eu trouxe, ainda sujo de areia.
Um pouco depois volta a conversar com sereias, e outros, outros.
Eu sou para minha mãe, a canoa talhada em ossos, que ela fala que deixou na orla das horas, lá atrás.
Fadigado por outros tantos anos tantos.
Ouço pisadas, espaçadas, do tempo, na areia de outrora.
São 18:45 e chove.
Como se fosse a única coisa tão próxima.

Réquiem...
2012, Osasco tanto de tanto de 2008.

Sétimo Dia.
O rastro que o mar deixou espalhado
atraiu as estrelas translúcidas.
E os cães abandonados.
Eu fechei as mãos com força e o sangue voltou ao coração como se de lá nunca houvesse saído.







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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Chegou o volume 6


Desvãos do Pensamento


No sexto volume da Coleção Letra de Médico, Josyanne Rita de Arruda Franco apresenta na obra "Desvãos do Pensamento", uma faceta ainda pouco conhecida de sua atividade literária: a narrativa poética. O livro segue no ritmo que o próprio título sugere, alternando a sensibilidade que procura rimas e encontra a prosa. No espaço do pensamento, a oportunidade de sonhar com palavras. Ao leitor, um desafio de não se envolver com a atmosfera sensível presente no livro. As aquerelas que ilustram o volume são de Ana Claudia M.Macedo

Eis um dos textos do livro:


DEPOIS DAQUELA TARDE

      Se ela estivesse nua em meio à multidão, decerto não seria tão minuciosamente observada. No entanto, podia sentir a força e o peso daqueles olhos pousados nela, mesmo estando de costas para eles: sempre foram implacáveis ao desnudá-la, esquadrinhando pensamentos e mistérios.
      Atrás dela ele permanecia calado e pensativo, perscrutando-a num silêncio aterrador e cabalístico, típico dos grandes finais. Os relâmpagos e trovões daquele fim de tarde orquestravam o “não dito”... o céu choraria por eles.
      Havia ainda um fio de esperança de que ela reconsiderasse a dolorosa decisão; ele a amava de um jeito muito próprio, mas verdadeiro, já que nunca acreditou em fórmulas de amor. Os amuos e tristezas eram coisas de momento, estava apenas sem inspiração e isso o agoniava; precisava escrever, continuar vivendo os sonhos, buscar emoções... não era culpa dela, eram os apelos, a vida que se agitava em seu íntimo, chamando-o. O que fazer para que ela entendesse? A acusação era injusta, não era inconstante ou temperamental, apenas um artista, um poeta, alguém que vê o mundo com outros olhos... e ela sabia disso quando começaram.
      Argumentava tentando convencer, demovê-la da ideia de ir embora definitivamente. Tentaria ainda uma vez seduzi-la, envolvê-la em beijos e sussurros apaixonados.
      Resolveu tocar a música que ela preferia ouvir todas as vezes em que se encontravam...a ideia encheu-o de entusiasmo.
      Imóvel, ela permanecia quieta e nem se virou para ver o que ele estava fazendo; ouvia seus movimentos, tentando se manter indiferente e quase constante. Já havia ensaiado a atitude, não queria ser surpreendida e sucumbir aos apelos dele. Os pensamentos a invadiam, cheios das lembranças que o amor utiliza como recurso: a intimidade e o prazer dos corpos... os risos, mimos e segredos.
      Ah, se o amor não fosse tão inconstante e volúvel, ele saberia sobre o que ela fala... com o tempo e a conquista consumada, floresceu o costume, vieram amargas cobranças e o desencanto. O lado escuro da paixão sempre cobra seus tributos: nem poesias ele escrevia mais para ela.
      Portanto, estava decidida a não ceder às chantagens e súplicas.
      Cansara-se do universo efêmero e volátil dele, bom demais aos delírios do amor e pouco prático para a realidade da vida. Era uma mulher acostumada a realizar, estava farta de fantasias, desejava a concretude dos planos. O abismo se tornara irreparável e os engolira.
      Ela suspirou fundo, quase um lamento assustado que percebia a proximidade do adeus.
      Olhou o ambiente que tanto conhecia: os quadros que ele pintara desalinhados nas paredes; as flores e a garrafa do vinho tinto repousadas no aparador; a escrivaninha repleta de livros; papéis amontoados, rascunhos de poemas. Sobre um velho divã, almofadas de veludo azul com apliques em vermelho, antes atraentes, hoje parecendo incrivelmente cafonas.
      Esboçou um sorriso desolado, pálido de encantos... concluiu que tudo aquilo eram truques, tolices românticas de um contumaz sedutor.
      O silêncio espectral e cheio de sombras resgatou-a ao lugar de despedida. Acordes melodiosos vindos do saxofone tentavam seduzir com a música que era sempre um convite: “fly me to the moon let me play among those stars...” Ah, era demais. Melhor fugir que capitular.
      Decidida, abriu a porta e se dirigiu ao elevador, passos firmes e altivos; nenhuma lágrima, nem um olhar para trás, uma palavra sequer.
      O som do sax silenciou, estupefato com o acontecimento.
      No térreo ela se desfez do celular na primeira lata de lixo que encontrou; de posse de um novo aparelho que tirou da bolsa, ligou resoluta e disse estar a caminho.
      Finalmente, acomodada no táxi que permanecera aguardando seu retorno, permitiu-[L1] se olhar uma última vez aquele endereço tão conhecido.
      Uma dor de ausência e perda muda e consumada percorreu-a inteira, numa invasão causticante que a encharcava de tristeza.
      Sentiu-se derrotada pela rima e pelo verso, pelo viço que tanto o rejuvenescia, pelo ardente olhar que arrebatou sua emoção numa distante e inesquecível noite de inverno.
      Da janela ele observava sua partida, jovial e carismático. Levantando a taça com vinho, ofereceu a ela um brinde, irreverente como sempre. Trazia estampada no rosto uma melancolia doce e cheia de dignidade.
      Ele seguiria sem ela nos caminhos da ilusão, ela sabia... Voltará aos seus escritos e logo a esquecerá. Não! Ele tornaria a escrever porque haveria uma saudade para lembrar, outra razão para não esquecer. O poeta é egoísta, só lhe interessa o que sente, melhor seria voltar ao encontro da segura realidade.
      Ela baixou os olhos bem devagar, até que os cerrou, como quem desce as cortinas ao fim do espetáculo. A mente descansava, esvaziada em racional alívio... a areia do tempo decerto cobrirá as ruínas do amor e tudo será passado.
      Recostada no banco do táxi, deixou-se levar até o destino escolhido, ouvindo o rumoroso tilintar da chuva que escorria nos vidros.
      Depois daquela tarde, nunca mais o viu.






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segunda-feira, 21 de março de 2016

Lançamento em Blumenau

A escritora MARCIA ETELLI COELHO realizou lançamento de seu livro "INDELÉVEIS INSPIRAÇÕES", no último dia 18.03.2016, em Blumenau (SC), durante comemorações do terceiro aniversário do Jornal Sem Fronteiras. O livro é o volume 1 da Coleção Letra de Médico, projeto da editora Rumo Editorial em parceria com a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.  Os livros da Coleção Letra de Médico podem ser adquiridos na loja virtual da editora:http://rumoeditorial.boxloja.com/


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Chegou o volume 5

PARIS CARTIER e outras histórias



No volume 5 da Coleção Letra de Médico, Mércia Lúcia Chade narra muito do que viu e viveu em suas poesias, contos, crônicas, relatos, causos e reflexões. Ela diz na introdução da obra: "Este livro foi escrito como se eu estivesse falando comigo mesma no espelho e com você, numa linguagem coloquial, onde existimos eu e você, num papo sem preconceitos, sem julgamentos, apenas um bate papo entre amigos..."

Veja a seguir uma das narrativas deste volume:


O suposto pai


Certo dia, um final de semana Lúcia estava em casa pela manhã, quando chega uma moça ainda jovem, mais jovem que Lúcia querendo lhe falar. Não quis entrar e então ficaram no portão.
Passou-se então o seguinte diálogo entre elas:
– Meu nome é Marisa e trabalho com Antônio.
– É?
– Sim.
– Não a conheço.
– É. Sou assistente social.
– Ah!
– Vim aqui porque tenho um filho.
– Ah! Eu também!
– Quero conversar com a senhora pois meu filho é filho do seu marido, o Antônio.
Lúcia ficou pasma, mas disfarçou bem e falou:
– Não sabia e nunca soube que Antônio tenha ou tivesse tido outro filho além do seu, mas comigo; mas não há problemas. Antônio está trabalhando, o que acontece sempre em alguns finais de semana, o que você provavelmente já deve saber. Mas vou falar com ele e marcaremos uma reunião entre nós três para resolvermos esta pendência. Garanto-lhe que Antônio assumirá a paternidade e seu filho não terá problema nenhum.
A moça concordou sem nenhum questionamento. Disse que voltaria para a reunião que marcaria então com Antônio em nossa casa e traria o filho para conhecermos. Despediu-se de mim, alegre e feliz.
Eu por outro lado, fiquei matutando, matutando... o problema, a solução e a abordagem que teria com Antônio quando ele chegasse.
Na hora do almoço Antônio chegou.
Sentamos e tivemos a seguinte conversa:
– Parabéns!
– Por que parabéns?
– Pelo seu novo filho.
– Que filho? Você está grávida?
– Não. Um filho seu, já grande e que está sendo criado pela  mãe.
– Você tá louca? Não tenho e nem tive outro filho que não seja o nosso.
– Ah tem!
– Com quem?
– Com a Marisa!
– Que raios de Marisa?
– A assistente social que trabalha com você.
– Comigo?
– É.
– Não sei de nenhuma assistente social chamada Marisa que trabalha comigo.
– Pois acho melhor procurar saber.
– Por quê?
– Porque você vai assumir o filho.
– Mas eu não tenho nenhum filho com outra mulher e eu nem conheço esta tal de Marisa.
Moral da história: Até hoje esperamos a reunião com a tal da Marisa que sumiu do mapa e que Antônio jura que nunca existiu na sua vida.
Antônio foi vítima de gozação anos a fio por causa do suposto “fio”. 

*** 
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Conheça os 4 primeiros volumes

A Coleção Letra de Médico já conta com os quatro primeiros volumes.
Conheça estes títulos e desfrute de todo o talento de nossos autores
em contos, crônicas, poesia, reflexões e romance.


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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Chegou o volume 4

PÉTALAS





No volume 4 da Coleção Letra de Médico vem com os contos, crônicas, limeriques, poesias e reflexões de Roberto Caetano Miraglia. Ele assim apresenta a sua obra: "Escolhi o título “PÉTALAS” já faz algum tempo. E, agora que surgiu esta oportunidade de publicação, vou usá-lo. Tenho em mente que o conjunto das pétalas forma a corola de uma flor. Comparativamente, o conjunto dos escritos forma um livro. Para mim, o bom livro é como uma flor que mexe com os nossos melhores sentimentos!"

Leia uma de suas histórias:


O retrato de Marieta


Gino estava viúvo havia dez anos. Marieta faleceu deixando Gino sob os cuidados das duas filhas.
Na parede da sala, próximo à porta de entrada de sua casa, Gino conservava o retrato de Marieta sempre limpo e brilhando. Ao sair para a rua, Gino se despedia de Marieta, e, ao chegar, olhava para o retrato e tirava o chapéu.
Certo dia, voltando de um passeio, Gino entrou em casa e, como sempre, tirou o chapéu para o retrato de Marieta. Mas... que surpresa! A foto... Marieta estava sorrindo para Gino!!!
– Dio Santo! Marieta riu pra mim! - exclamou o assustado velhinho.
– Nicolina, Conchéta, viene qui! - gritou Gino para as suas filhas.
– Fala papá! Que aconteceu?
– Dio mio! Tua máma riu pra mim!
– O quê ? Bebeu vinho, papá?
– Ma que? Io vi com esses ólho que a terra há de comê!
– Papá, onde já se viu um retrato dá risada!?
– Ma io vi!!!
– Ma viu a máma dá risada!? Como isso é possível, papá? Será que não foi um cisco no olho?
– Cassarola, ma que cisco que nada, io vi Marieta ri pra mim! Deu até pra vê o dente de ouro que ela tinha no lugar do canino esquerdo!
– Papá, você viu a máma com um cachorro na boca?
– Chega, Nicolina! Basta Conchéta! Vocês não acredita no que io to falando! Deixa estare!
Gino foi para a cama ainda surpreso com o que havia visto e muito bravo com suas filhas que não acreditavam na sua visão.
No dia seguinte, bem cedo, Gino resolveu sair, e, como de costume, se despediu do retrato.
Gino já estava na rua quando decidiu voltar e olhar de novo Marieta.
– Cáspita! Marieta balançou a cabeça!
– Nicolina!! Conchéta!! - gritou Gino.
– Ma que houve papá? - indagou Nicolina.
– Io não tô ouvindo nada, io tô vendo sua mãe balançá a cabeça!
– Papá, outra vez com essas visão? - criticou Conchéta.
– Ma será o Benedito!? Voceis não acredita numa palavra que io falo?  Marieta balançou a cabeça, é vero!!!
– Papá, com quantos anos o senhor tá? - perguntou Nicolina.
– Acho que com todos!
– Ma vá papá, responde sério!
– É sério! Io não me recordo! Só sei que faz tempo que io nasci na minha bela Itália. Acho que quando vim pro mundo, o Papa ainda era coroinha!
– Pois é papá! É problema de “umidade”!
– Ma que umidade?!
– “Uma idade” avançada!
– Nicolina, você tá debochando de tuo papá! Io vi tua máma balançá a cabeça, e se voceis não acredita, io vô dá uma vorta! Arrivederci!
–Tchau, papá!
Gino foi se distrair um pouco para acalmar os nervos. Ninguém acreditava em uma só palavra do que dissera e isto o aborrecia muito.
A notícia de que Gino via o retrato de Marieta se mexendo havia se espalhado por todo o bairro do Cambuci. Em qualquer lugar que fosse Gino era questionado sobre suas visões e acabava sendo alvo de brincadeira dos amigos.
– Ei! Gino! Sono io, Vitório! Come estai, compadre?
– É, Vitório, io acho que tô ficando pazzo!
– Ma quê? Sei pazzo em dizer que está pazzo?
– Ma nó, Vitório! É que ninguém acredita que Marieta se mexe no retrato!
– E você, acredita?
– Ma, claro! Se io to falando que vi é perché vi!
– Intó, Gino, não seria aquelas coisa de “gato ou passarinho” que os médico fala?
– Ma que coisa é essa, Vitório?
– Uma tar de “mia ou pia”?!
–Nó, Vitório! Se io tivé alguma coisa nas vista, o remédio é uma cadeira!
– Cadeira? Pra quê, Gino?
– Pras vista cansada!
– É Gino, você gosta de brincá! Cadeira pra vista cansada! Essa é boa, compadre!
– Só brincando mesmo, compadre Vitório! Só brincando!
–Vá benne Gino! Ma non fica triste, vá! Se a Marieta, que Dio a tenha, tá se mexendo prá você é porque ela qué arguma coisa, você não acha?
– Ma, que coisa?
– Io não sei! Ma, da outra vez que ela se mexê, pergunta pra ela!
– Boa ideia, compadre! É isso mesmo que io vô fazê! Tchao compadre!
– Tchao, Gino! Se cuida! Io sei que você tem as vista boa, mas da outra vez que sair na rua, coloca a ceroula por baixo das  calça e não por cima! Vá benne!?
Gino ficou esperançoso com a sugestão dada pelo compadre Vitório. Quem sabe se perguntando, Marieta responderia o porquê de tudo o que estava acontecendo.
Voltando para casa pela Rua Lavapés, fez o sinal da cruz quando avistou acima a Igreja Nossa Senhora da Glória e foi em direção ao Largo do Cambuci para chegar até a Rua Major José Bento pela Rua Independência.
Durante o percurso, tendo em vista que a notícia havia se espalhado, a criançada brincava com o bom velhinho:
– Seu Gino, Seu Gino,
   bateu a cabeça
   e ficou ouvindo o sino!
– Mais respeito, seus moleque! – esbravejava Gino.
E a molecada continuava cantando os versinhos de provocação:
– Seu Gino, Seu Gino,
   Onde está Dona Marieta?
   Acho que está dentro do retrato,
  Fazendo um monte de careta!
Chegando em casa, Gino foi em direção ao retrato e logo foi dizendo!
– Marieta, Marieta, o que você qué?
Depois de um pequeno silêncio, ouviu-se:
– Dinheiro pra fazê compra no armazém!
– O quê?! - exclamou o assustado velhinho.
– É papá! Eu preciso comprá umas vinte lâmpida e me esfregá bastante!
– Mio Dio, Nicolina, que susto! Você não tá vendo qui io tô falando com sua máma? E pra quê você precisa de vinte lâmpida pra se esfregá?
– Porque o médico-torpedista do Hospital Penitência Portuguêsa disse que pra eu me curá das dor nas costa eu preciso tomá muito banho de luz!  Avete capito?
– San Genaro! Quanta ingnorância! Onde já se viu uma coisa dessa!
Os dias foram passando e Gino vendo Marieta se mexer no retrato. Ora piscava, ora sorria, ora balançava a cabeça. E ninguém acreditava em suas visões.
O bom velhinho já nem ligava mais se as pessoas davam crédito à sua palavra, pois o que realmente importava era saber que Marieta lhe mandava sinais.
Nicolina e Cocheta estavam pensando em levar Gino ao médico. Os amigos foram aos poucos se afastando, porque imaginavam que estava esclerosando, principalmente quando ele vestia a ceroula por cima das calças!
O tempo, implacável, foi passando, até que um dia o coraçãozinho de Gino parou e ele foi ao encontro de sua querida Marieta.
Para homenagearem seu pai, Nicolina e Conchéta colocaram o retrato de Gino ao lado do retrato de Marieta, próximo à porta de entrada da casa, e todos que passavam pelos retratos faziam reverência, como culto ao amor eterno daquele casal.
Depois do demorado velório, Gino foi enterrado no Cemitério da Vila Mariana, cercado de muita tristeza e principalmente de muito remorso das duas filhas, que sempre caçoavam do pai por suas fantasias.
Nicolina e Conchéta voltaram para casa tristes e cabisbaixas, abriram a porta da sala, olharam para o retrato do pai e falaram:
– Descurpe, papá, se nóis te chateou! Ma é difícil acreditá que a máma se mexeu, capisce? Num dá pra engoli que retrato pisca e dá risada! O senhor não acha? - disse Nicolina.
– É papá, o senhor e a máma faiz farta! - Disse Conchéta chorando.
– Vá benne, a vida continua, Conchéta. Vamo dormi que amanhã é outro dia!
– Tá certo, Nicolina. Vamo  em frente que atrais vem gente!
As duas olharam para os retratos e disseram:
– Buona notte papá! Buona notte máma!
– Buona notte! - ouviu-se ao longe.
– O quê?! Você falou arguma coisa, Nicolina?
– Io? Io nó! Já até tirei os dente de cima pra dormi!
– Nó, ma eu ouvi falá buona notte!
– Ma, eu também!
– Será que foi o papá?
– Sei pazza! Retrato não fala!
– Ma falô!
– Será?


                                                                   ****

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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Chegou o volume 3

AS CAMPÂNULAS AZUIS




No volume 3 a Coleção Letra  de Médico apresenta o livro de estreia de Maria do Céu Coutinho Louzã onde ela reuniu seus contos, crônicas e alguma poesia que vem escrevendo desde que passou a dedicar-se a registrar suas histórias. Agora todo o encanto e delicadeza de seus escritos estão juntos, para gáudio dos leitores que já aprenderam a admirar seu talento literário.

Leia uma de suas histórias:


Uma tarde monótona

            Quem chegasse durante a tarde, todos os dias a encontrava sentadinha no banco do terraço, com os braços cruzados. Pequenina e magra, sempre com uma saia longa, parecia uma menina ansiosa, à espera de alguém que a viesse buscar. Era assim a sua rotina de sempre, naquela casa de repouso, onde já vivia há alguns anos.
            O terraço da casa dava frente para um jardim bem cuidado. Canteiros floridos formavam lindos desenhos geométricos sobre o gramado. Passarinhos saltitavam alegremente, à procura de algo para comer ou voavam entre os galhos de algumas árvores, que ao cair da tarde projetavam sombras com desenhos estranhos nas paredes do sobrado. Um portão bem fechado era encimado por uma linda buganvília que sempre se cobria de flores cor de vinho. Formava um gigantesco buquê colorido, encantando quem por ali passasse.
            A senhora demonstrava uma grande doçura no seu olhar e até nas rugas, que certamente acusavam a sua idade. A sua decisão de morar numa casa de idosos contrariou sobrinhos, sua única família. Mas ela dizia que ficara só e só deveria viver. Não daria trabalho nem preocupação a eles. Quando quisessem vê-la seria sempre um prazer. Poderiam encontrá-la ali, no lar que escolhera para terminar os seus dias. E era assim que vivia já há alguns anos. Era conhecida pelos companheiros pelo seu jeito de ser arredio, muito quieto. Porém sempre amável quando a ela se dirigiam.
            Mas para ela os seus dias eram longos e sem sabor. Pouco convivia com os outros hóspedes a não ser para assistir televisão ou para uma prosinha sem consequências. Porém, isso era muito raro. Preferia permanecer no seu canto onde se sentia melhor e procurava não pensar no passado. O passado feliz era passado. Estava há muito jogado num cantinho de uma gaveta. Achava sempre que não deveria pensar em algo bom que a vida não traria de volta. Assim os dias se arrastavam lentamente e as noites eram longas, muito escuras, rondando a sua solidão.
            Com os braços cruzados olhou para o portão mais uma vez. Depois ergueu os olhos para aquele céu tão azul e lindo, com nuvens que, ora corriam ora se desfaziam para aparecerem mais além. Era como um quadro sempre em movimento, pensou a senhora.
            Olhou novamente o jardim, agora sendo regado por repuxos finos de água produzidos por algum dispositivo. O jardineiro sempre atento deve ter ligado, pensou consigo mesma. Eles refletiam as cores do arco-íris nas gotículas que caiam rápidas sobre a grama. Reparou e achou engraçado uma fileira de formigas subindo pela parede. “Parecem bem organizadas!” pensou consigo mesma.
            O sol já cansado de iluminar o dia, se despedia, deixando no horizonte rabiscos coloridos, para assim permitir que estrelas, timidamente começassem a brilhar ao longe.

            A velha senhora olhou mais uma vez para o portão fechado. Nenhuma visita havia aparecido naquela tarde como era costume e o dia, que terminava, fora tão longo! Levantando-se, agarrou com as duas mãos o seu casaquinho, como se o frio do crepúsculo ameaçasse tirá-lo e lentamente dirigiu-se para dentro da casa. E deixou para trás todos os seus pensamentos de uma tarde inexpressiva.


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